Outro dia escrevi aqui um texto sobre a importância de incentivar o autoconhecimento desde a infância. Segundo inúmeras pesquisas, crianças que aprendem a lidar com as próprias emoções e pensamentos tendem a se tornar adultos mais bem-preparados para enfrentar adversidades e para proporcionar, a si mesmos, experiências de vida mais positivas.

Há, ainda, outros estudos que revelam a importância de estimular a prática esportiva, de acompanhar mais de perto o desempenho escolar, de inserir atividades culturais como parte da rotina das crianças… Enfim. Sobram exemplos e possibilidades para que nós, pais, ofereçamos verdadeira colaboração ao processo de desenvolvimento dos nossos pequenos.

Mas, verdade seja dita, muitas e muitas vezes todas essas revelações científicas só fazem com que nos sintamos mais culpados e mais cobrados por tudo aquilo que não temos sido capazes de fazer por nossos filhos. Eu mesma, mãe de 4 filhos (uma delas ainda adolescente), sei o quanto é difícil lidar com todas essas expectativas – muitas das quais nutridas por nós mesmos e sobre nós mesmos.

O que eu quero dizer é que entendo: nosso desejo mais honesto, via de regra, é que sejamos mães e pais perfeitos; que nossos filhos recebam, de nós, o amor incondicional, o exemplo impecável, a motivação necessária e todas as demais ferramentas de que precisarão para construir o próprio sucesso e a própria felicidade.

A grande armadilha por detrás desse desejo é que, infelizmente, ele é inalcançável e inexequível (ainda bem!). Nós não seremos pais perfeitos, assim como nossos pais não o foram. E é sobre esse assunto que quero falar contigo hoje, dia 23 de setembro, “Dia Mundial dos Filhos“. E já que todos nós somos filhos (ainda que não sejamos pais), acredito que esse conteúdo vai lhe interessar!

 

A herança dos seus pais...

A herança dos seus pais…

Não sei se você já ouviu falar sobre o Processo Hoffman, então, antes de seguir em frente, preciso lhe contar um pouco mais sobre este trabalho que mudou a minha vida e de mais de cem mil pessoas ao redor do mundo. Quando Bob Hoffman criou esse treinamento, mais de 50 anos atrás, ele baseou toda a sua metodologia na Síndrome do Amor Negativo.

A Síndrome, por sua vez, é uma teoria relativamente simples, mas profundamente impactante: ela defende que todos nós, seres humanos, em menor ou maior escala, vivemos a sensação de profundo desamor em algum período da infância. E, então, como resultado desta dor tão lancinante, crescemos com a crença inconsciente de que somos indignos de sermos amados.

Ok, num primeiro instante, pode parecer confuso, então vamos à prática. Peço que pense rapidamente nos seus pais de infância e/ou nas pessoas que foram seus responsáveis quando você era pequeno(a). Podem ser seus avós, tios, irmãos mais velhos, enfim, qualquer um que tenha sido seu principal cuidador durante esse período. Certo. Agora me conte: o é que essas pessoas faziam naquela época que você simplesmente não suportava?

Eles eram agressivos?
Grosseiros?
Ignorantes?
Falavam alto, usavam palavrões, humilhavam quando queriam lhe repreender e ensinar uma lição?
Ou, ainda, eles não lhe davam a atenção que você queria, precisava e até merecia?
Aliás, será que eles nem percebiam sua existência? Pelas suas recordações, seus comportamentos não eram nem mesmo notados?

Agora, relembre rapidamente a maneira como manifestavam o amor que sentiam por você.

Eles eram carinhosos demais, a ponto de serem grudentos e, quem sabe, fazer com que se sentisse envergonhado(a) pelas constantes exibições públicas de afeto?
Ou, ao contrário, você pode contar nos dedos das mãos as vezes em que foi abraçado(a), beijado(a) e acarinhado(a) por seus pais?

A minha pergunta é: quais falhas essas pessoas cometeram contra você? Qual desamor se manifestou de forma inesquecível na criança que você um dia foi?

Bem, se você conseguiu cumprir minha proposta até o fim, provavelmente está, nesse momento, experenciando algum desconforto. Eu sei… Essas lembranças não são prazerosas. Pelo contrário, doem, machucam e fazem com que se sinta, novamente, raivoso(a) ou magoado(a) com o mal que lhe foi feito.

Mas, por favor, continue nesse exercício… E, se possível, tente perceber: quanto desse comportamento negativo agora “vive” em você?

Assim como seus pais ou responsáveis, você também se tornou explosivo, agressivo, grosseiro e ignorante? Ou, ao contrário, jurou a si mesmo que não trataria as pessoas (especialmente seus filhos) dessa forma – e, por isso, tornou-se alguém que prefere levar desaforo para casa?

Você é, até hoje, quem humilha, quem é humilhado(a), ou quem vive ambas as situações nas suas relações mais importantes?

E como demonstra seu amor, com “grude” ou com distância?

O fato para o qual estou chamando sua atenção é: quanto dos seus pais de infância há em você até hoje? E, se as ações deles lhes fizeram tão mal, por que é que você repete esses gestos? (lembrando que, ao adotar a postura exatamente inversa, você também está replicando o aprendizado infantil!).

Isso é a Síndrome do Amor Negativo. Nós repetimos à exaustão os padrões de comportamento de nossos pais como forma inconsciente de vingança contra eles. Acreditamos, sem perceber, que essa é a maneira de nunca mais experenciarmos o desamor; mais que isso, de devolvermos a eles o desamor do qual fomos vítimas. Assim, acabamos por nos tornar vítimas de nós mesmos. Afinal, quem é que consegue ser feliz com o peito tão cheio de raiva, angústia e amargor?

 

… Que se estendem para os seus filhos

Só há um caminho para acabar com esse círculo vicioso da vingança, que é a trajetória da compaixão e do perdão. Não foi à toa que escrevi um livro sobre esse assunto. Mas, antes de falar sobre o perdão, o que eu preciso muito lhe contar no “Dia Mundial do Filho” é um clichê maravilhoso… Está preparado(a) para me ouvir? Lá vai!

NINGUÉM É PERFEITO!!!!

Ouviu? Vou repetir: NINGUÉM… (NEM VOCÊ…) É PERFEITO!

A perfeição não existe, mas, inconscientemente, a maioria de nós tem procurado por ela a vida toda. Queremos alcançar um estágio em que nunca mais estejamos suscetíveis a erros ou falhas individuais, porque, afinal, na nossa crença infantil, essa é a receita para que nunca mais vivamos o desamor.

Isso é o que fazemos, em primeiro lugar, conosco. Lembra que falei da cobrança que nutrimos internamente sobre os pais ou mães que gostaríamos de ser? Ninguém necessariamente nos disse como eram o pai ou a mãe perfeitos. Ainda que tenhamos lido em revistas e livros, ouvido em podcasts e estudado muito a respeito, enquanto não formos conscientes dessa busca pela perfeição, continuaremos a ansiar pelo modelo de paternidade e maternidade  que criamos ainda na infância. Modelos que simplesmente são inalcancáveis, como também lhe disse lá no início.

O que eu quero dizer com isso é que os pais que tivemos na infância não deixarão de ser nunca os pais que tivemos na infância. Sinto muito se isso lhe causa dor, sinto verdadeiramente por sua dor. Mas o que você fez e faz disso, isso, sim, pode ser mudado e transformado como e quando quiser.

O seu papel como filho pode ser transformado e não há nada mais libertador que isso! Independentemente de seus pais, de seus irmãos, de seus filhos ou de seus familiares, quem você foi e ainda é como filho pode ser diferente, desde que assim você queira.

E quando você decidir se apropriar do seu melhor; quando decidir que está na hora de abandonar suas vinganças (porque elas apenas lhe causam dor); quando puder se apropriar do ser único em que se transformou em vez de alimentar a lembrança infantil da criança que, um dia, sentiu-se abandonada e rejeitada; enfim…

Quando quiser se apropriar de um novo lugar no mundo, inclusive como filho, o que seus pais fizeram deixará de importar. O que ficará será a chance de que você faça diferente. Primeiramente por si mesmo. Depois pelos seus filhos e entes queridos. O que você acha dessa ideia?

Bem, espero que goste e que tope o desafio! Se quiser saber mais sobre esse assunto, faça o download gratuito do eBook “Como dizer Não falando Sim – inco dicas práticas para você obter resultados mais positivos com seus filhos“.

Se tiver dúvidas, me escreva: [email protected].

Vou adorar saber de você!

Com amor e luz,

Temas:

Expert em Autoconhecimento e Inteligência Comportamental, considerada uma das maiores especialistas no método Hoffman, no Brasil. Palestrante, Coach, Master Practitioner em PNL, Consteladora Sistêmica, autora de "O Mapa da Felicidade" e coautora de mais sete livros sobre Gestão de Pessoas, Liderança e Coach. É diretora do Centro Hoffman

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