Lembrei que devemos continuar nos propondo a viver o melhor de nós, sentir a vida, assim como o menino sentiu o mar pela primeira vez. Devemos permitir que as ondas nos molhem, indo devagar e continuamente, até que possamos viver cada vez com mais profundidade.

Na última semana de dezembro tive a oportunidade de levar um menininho de três anos para ver o mar pela primeira vez. Ele estava empolgado e eu curiosa, pois nunca havia imaginado o que se passava com alguém que vê o mar pela primeira vez. Morei no Rio de Janeiro durante minha infância e meu pai fazia questão de nos levar para brincar na praia quase todos os dias. Aos finais de semana, o passeio até a praia era rotina. Por isso, para mim, o mar sempre esteve ali.

De volta ao pequeno menino, notei que, enquanto nos preparávamos para ir à praia, ele se encantava com sua sunga nova e com a movimentação da casa. Tudo ao seu redor era novidade e ele vivenciava esse momento divido entre a alegria e o medo. Olhava para mim com os olhinhos assustados e divertidos. Até que ficássemos prontos, a sua ansiedade aumentou. Saímos de casa quase correndo para encararmos as rápidas três quadras que nos levariam ao mar – distância que, para ele, parecia quilômetros.

Finalmente, chegamos ao mar. Ou melhor, em frente a ele. O menininho parou ali e respirou fundo. Soltou o ar como num suspiro. O mar é grandioso, pensei, e esse pequeno ser que está aprendendo como é ser ‘gente’ já reconhece isso.

Ele soltou minha mão, correu em direção à água e logo estranhou a areia. No entanto, continuou sua corrida até colocar seus pezinhos na água. Assim que as ondas se aproximaram, veio correndo ao meu encontro e buscou novamente a segurança da minha mão. Nesse momento, pensei na metáfora de Deus que mais gosto.

Quando apresentei o mar aos meus filhos, muito tempo atrás, disse a eles: “Olhem para o mar! Assim é Deus: grandioso, magnífico, inexplicável e belo. Olhem para Deus enquanto vocês veem o mar”.

Lembrei-me disso naquele momento, quando novamente senti pequenas mãozinhas procurando pela segurança das minhas mãos. Pensei em Deus e no caminho que fazemos para encontrá-lo.

O que é Deus? A minha resposta vem do meu coração e não das religiões que conheço, embora elas me ajudem a pensar nele. Deus, o infinito, a força criadora, a fonte inesgotável de amor, a energia do Universo, a Luz. Nós o procuramos e, quando o encontramos, fugimos para nosso lugar de conforto. Voltamos para o conhecido mundo humano, falível, frágil, pequeno, finito, limitado e… Seguro.

Ao observar meu companheirinho em suas diversas tentativas de entrar no mar, eu pensava que esse é o jeito que encontramos para nos aproximar da Luz. Fazemos inúmeras tentativas. Colocamos o pé e, depois, corremos de volta para a nossa escuridão tão conhecida e possível.

Mas, quando temos a persistência de uma criança, tentamos novamente, colocamos os dois pés e suportamos o calor, exatamente como o pequenino fez na segunda tentativa. Ele aguentou o movimento das ondas e viu que estar ali era até gostoso. Ficou um tempo tenso e correu algumas vezes em direção à minha mão em busca de segurança, até que conseguisse dar mais alguns passos.

Não é assim que fazemos quando conseguimos dar os nossos passos em direção à Luz? Começamos a querer um pouco mais e a ter coragem de entrar mais um pouco nesse espaço. Enquanto esse garotinho olhava para o mar, e ria quando as ondas chegavam, e permanecia em pé para não ser levado por elas, ainda olhava para trás para garantir que poderia voltar.

Nosso desejo de estar na Luz e em contato com a Energia Universal – à qual algumas pessoas dão o nome de Deus – é parecida com a do meu amiguinho diante do mar. Queremos, mas só o que aguentamos. Precisamos saber que o nosso mundo estará lá sempre que quisermos voltar.

Estar na Luz significa entrar no inexorável, na impermanência e no intangível. Nós precisamos de mais tempo! O meu garotinho precisa crescer e desenvolver algumas habilidades para conseguir entrar mais fundo no mar. Assim como nós, humanos, precisamos de tempo para amadurecer o nosso desejo de melhoria e evolução.

Depois de algum tempo, esse ser de três aninhos de idade conseguiu se sentar à beira do mar e, algumas vezes, foi derrubado pelas ondas. Ainda assim, conseguiu brincar com a água e reconhecer que estar naquele lugar era bom e prazeroso.

Da mesma forma, nós, ‘gente grande’, de tanto tentarmos o contato com a energia Universal, acabamos por nos acostumar com o conforto da Luz e ficamos cada vez mais felizes de estar nesse lugar. Lembrando que o lugar que ocupamos nesta vida, neste momento, ainda é o de seres humanos, portanto, falíveis e medrosos.

O medo, a dor e o amor nos compõem e é assim que somos. Viver o amor verdadeiramente é como adentrar nas profundezes do mar, mas nós ainda não conseguimos alcançar esse objetivo plenamente. Não existe erro nisso, apenas humanidade. No entanto, por outro lado, viver o medo e a dor o tempo todo não é humano.

O menino que me pediu para conhecer o mar fez com que eu me lembrasse qual é o melhor lugar para estarmos. Devemos continuar nos propondo a viver o melhor de nós, o melhor da vida. Por isso, sempre que pudermos, devemos colocar nossos pés no mar e permitir que as ondas nos molhem, indo devagar e continuamente, até que possamos chegar cada vez mais fundo. E, quando sentirmos medo ou cansaço, voltamos para a terra firme, reconhecendo que, a cada experiência junto ao mar, nossa vida na Terra será ainda melhor.

Ficar em contato com Deus, com o amor Universal e incondicional, será sempre uma experiência, assim como viver com nossas falhas e com nossa escuridão. A soma dessas experiências chama-se VIDA e ela pode ser vivida simples assim.

Um garoto me contou que podemos amar e podemos fugir do amor porque o amor nos encontrará onde estivermos. 70% do nosso planeta é constituído por oceanos, assim como 70% do nosso corpo é feito de água. Então, queiramos ou não, o mar nos encontrará. E você poderá ir de encontro a ele sempre que quiser, apesar do medo.

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CEO do Centro Hoffman, é expert em Autoconhecimento e Inteligência Comportamental, considerada uma das maiores especialistas no método Hoffman no Brasil. Palestrante, Coach, Master Practitioner em PNL, Consteladora Sistêmica, autora de "O Mapa da Felicidade" e de "Perdão, A Revolução que Falta", além de coautora de mais sete livros sobre Gestão de Pessoas, Liderança e Coach.

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