Ao longo das últimas três décadas em que estou à frente do Processo Hoffman, constatei que a falta de perdão (ou a incapacidade de perdoar) é a principal razão para que as relações amorosas cheguem ao fim. O que eu testemunhei nesses anos todos foi uma grande quantidade de casais se separarem por não conseguirem superar as mágoas ou dificuldades vividas a dois. E, acredite: isso acontece tanto em relações curtas, de apenas alguns meses, como em casamentos de décadas e décadas.

Bem, eu defendo o perdão acima de tudo, inclusive nos relacionamentos amorosos. Como digo no livro “Perdão – A Revolução que Falta”, não há nada que seja imperdoável, nem mesmo as grandes atrocidades ou guerras que causaram genocídios. E sabe por quê? Porque o perdão não é sobre o outro, mas, sim, sobre mim. Quando eu decido perdoar alguém por algo, esse gesto é positivo para o meu coração, para a minha mente e para o meu espírito; e eu não tenho nenhum controle do impacto disso na vida do outro.

Então, por exemplo, se você me perguntar se é possível perdoar uma traição, a minha resposta é sim. Sim, mas não porque o outro merece seu perdão; quem merece é você!

Você merece parar de remoer a traição.
Você merece parar de se corroer, de imaginar o que foi e como foi.
Você merece parar de se culpar ou de se sentir enganado(a).
Você merece curar seu coração e compreender que coisas assim acontecem.
Enfim, você merece substituir a dor pelo amor-próprio para seguir em frente.

 

Entende o que quero dizer? O que o outro fez, está feito e, infelizmente, não tem volta. Como é que isso vai afetar a sua vida é, sim, uma escolha. Primeiro, por você: o perdão lhe devolve a paz de espírito e a capacidade de se amar. Depois, pela relação: com o perdão, podemos zerar nossas contas emocionais para vivermos uma renovação constante na vida a dois.

A questão aqui é que quando acumulamos mágoas, raivas e ressentimentos, também acumulamos a impossibilidade de mudança. Ficamos presos à crença de que o outro é que tem que mudar, que não tem jeito esse relacionamento, que ele(a) faz de propósito para lhe magoar.

Então, veja que interessante: o perdão requer que a gente se responsabilize por nossas escolhas, nossas vidas e nossos sentimentos. Quando sinto raiva, a raiva é minha; assim como o perdão, a compreensão e o amor. No relacionamento amoroso, devemos escolher o amor e, para que ele sobreviva, é fundamental exercitar a compreensão e o perdão de dentro para fora. Afinal, as mudanças que vêm de dentro são as que realmente perduram.

Agora, eu vou explicar, em tópicos, algumas nuances importantes sobre o perdão na relação a dois. Vamos lá?

 

1) Você só vai perdoar ao outro se, antes, perdoar a si mesmo(a)

Nosso aprendizado é olhar para o outro, portanto, sempre acreditamos que o outro é que precisa mudar na relação quando algo vai mal. Afinal, foi ele quem nos magoou, feriu, abandonou, desprezou e, em suma, fez com que nos sentíssemos não-amados(as).

Mas, deixe-me dizer uma coisa importantíssima: ninguém no mundo, a não ser você mesmo(a), tem o poder de fazer com que você se sinta assim. E, se tem, quem autorizou essa pessoa que lhe fizesse tamanho mal foi você. No fundo, no fundo, todos nós sabemos disso e, por isso, nos culpamos por termos permitido que alguém nos machucasse assim.

É por isso que o perdão começa de mim para mim, de você para você. Primeiro, você precisa reconhecer suas falhas. Depois, perdoar a si por tê-las cometido, por ter autorizado alguém a lhe tirar do sério, a lhe magoar, a causar sofrimento. Só então conseguirá fazer o mesmo pelo outro.

Sendo assim, o perdão é um exercício profundo de autoconhecimento. O que acontece é que, muitas vezes, nós fingimos perdoar para, em seguida, cobrar e exigir do outro – afinal, nós o perdoamos e, agora, ele nos deve. “Se ele fez, ele tem de pagar”… Não é isso que pensamos? Infelizmente, num relacionamento, o sentimento de vingança costuma aflorar mais facilmente do que o do perdão; no entanto, o perdão é que salva as relações.

 

2) O perdão não acontece do dia para a noite; é preciso praticá-lo diariamente

Costumo dizer que nosso grande paradoxo enquanto seres humanos está no fato de que somos capazes de grandes gestos de solidariedade e empatia em relação a pessoas que nem conhecemos e, ao mesmo tempo, somos incapazes de compreender e perdoar um mau dia daqueles que convivem conosco e a quem amamos. Não é curioso?

O que quero dizer é que, assim como você, o outro também erra sem querer. Eu tenho certeza que, naquela discussão horrorosa que teve com seu parceiro ou parceira, você não o(a) magoou por mal. Você não quis dizer o que disse, da maneira como disse. E você não quis usar aquilo que sabia a respeito dele(a) contra ele(a). Mas, se você genuinamente não faz intencionalmente, por que acredita tanto que ele ou ela faz de propósito?

Veja que o amor que você espera, deseja e sonha receber precisa, antes de mais nada, começar em você. Assim como a capacidade de perdoar. Eu também sei que você gostaria muito de ser perdoado(a) pelos erros que cometeu na relação. Que tal, então, perdoar a si mesmo(a) primeiro e aos poucos e, depois, começar a fazer o mesmo pelo seu parceiro ou parceira?

 

3) Perdoar não significa esquecer e também não significa dar outra chance

Perdoar é verbo e só pode ser conjugado na ação. Impossível experimentá-lo apenas nas palavras e na intenção. Este é um exercício intensamente vivido e sentido. Perdoar é uma questão de inteligência. Portanto, muito mais do que sentimento, é atitude.

O que acontece é que muita gente acha que perdoar significa esquecer e, não, não é por aí. O processo cognitivo da memória necessariamente não precisa ser afetado pelo processo emocional do perdão. Isso significa que perdoar pode ou não fazer com que você se esqueça do que passou; o que muda, de verdade, é que, ao perdoar, você deixa de remoer ou ressentir um acontecimento mesmo quando se lembra dele.

E, depois de perdoar, sempre será uma escolha sua se quer ou não dar outra chance a pessoa que lhe magoou – uma decisão que, certamente, será muito mais consistente agora que foi capaz de perdoar ao outro.

 

4) Empatia e compaixão são indispensáveis a um relacionamento saudável

Perdoar se torna uma prática ainda mais poderosa quando levamos em consideração os nossos próprios erros e os daqueles que tiveram um papel atuante na nossa história. Para agirmos de forma diferente e conquistar melhores resultados, precisamos, antes de tudo, revisar o nosso passado e detectar onde falhamos.

Depois disso, é necessário verificar porque erramos e essa análise invariavelmente nos levará a refletir sobre o papel dos nossos pais ou cuidadores. Eles possuem uma parcela de responsabilidade na maneira como agimos, pois foram nossos principais influenciadores no desenvolvimento emocional (isso se dá de maneira natural e inconsciente), e esse jeito pode estar causando grande danos em nossa vida adulta sem que percebamos.

Da mesma forma, nosso(a) parceiro(a) também teve trajetória individual que o afetou de alguma forma. No momento em que você começar a enxergar o outro como semelhante, sujeito a falhas e também vítima em algumas situações, é possível sentir compaixão por ele. E, quando existe a compaixão, há também igualdade. Em outras palavras, quando pensamos na história do outro a partir desse novo ponto de vista, ganhamos a chance de compreendê-los e perdoá-los.

Bem, espero que tenha gostado de mais esse conteúdo!

Até a próxima.

Com amor e luz,

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Expert em Autoconhecimento e Inteligência Comportamental, considerada uma das maiores especialistas no método Hoffman, no Brasil. Palestrante, Coach, Master Practitioner em PNL, Consteladora Sistêmica, autora de "O Mapa da Felicidade" e coautora de mais sete livros sobre Gestão de Pessoas, Liderança e Coach. É diretora do Centro Hoffman

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