Quando a pandemia se instalou de vez e entendi que o futuro era absolutamente incerto, adotei a mesma estratégia que a maioria dos empresários que conheço: fui rever as contas da minha empresa para saber quais despesas poderiam ser reduzidas ou cortadas para me prevenir contra uma eventual crise financeira.

Como resultado, acabei tomando uma decisão com a qual já flertava há algum tempo; decidi que estava na hora de dissolver a minha sede e colocar toda a minha equipe em regime de home office. Como eu, tantos outros foram pelo mesmo caminho.

Os bancos, por exemplo, decidiram que uma boa parte de seus funcionários vão continuar neste esquema de trabalho mesmo após a pandemia, como mostra essa matéria; empresas grandes, como Google, Facebook e Twitter, vão deixar os funcionários decidirem como preferem trabalhar.

Na prática, para a surpresa de muita gente que não acreditava nessa possibilidade, trabalhar de casa se mostrou uma realidade possível, viável e, em muitos casos, bastante eficaz (segundo uma pesquisa, 80% dos gestores do país hoje aprovam o trabalho remoto).

Trago esses dados à tona para dizer que a forma como trabalhamos e, também, o nosso entendimento do que é trabalho foram duas das inúmeras realidades profundamente alteradas pelo avanço do coronavírus. Mas há tanto mais que essa pandemia mudou irrevogavelmente!

Sim, há muita, muita coisa que não vai mais voltar. Pelo menos, não como era antes. Minha equipe e eu somos exemplo: nós não vamos voltar ‘ao normal’, porque simbolicamente aquela estrutura física que ocupávamos antes já nem existe mais; mas isso não quer dizer nada, somente que nos transformamos, que abraçamos a mudança em curso. E que, portanto, mais do que não voltar, a nossa decisão é avançar.

Autoliderança como caminho

O que quero dizer é que, apesar da perspectiva de voltar no tempo parecer algo reconfortante para muitos, não temos como fingir que nada aconteceu e simplesmente entrar numa cápsula do tempo. Felizmente para uns, infelizmente para outros, retornar ao passado não será possível! Mas a questão principal que quero colocar aqui é: como vamos construir uma nova realidade depois de transformações tão profundas? E quem comandará essa reconstrução?

Mesmo que você volte para o lugar físico do seu trabalho, ele já não será o mesmo, assim como o seu colega ou o seu chefe não serão mais como eram antigamente. Mas isso também vale para as nossas vidas pessoais e, inclusive, para a forma como gerenciamos as nossas próprias emoções e comportamentos. Tudo isso também mudou.

Ainda que a vida passe sempre como um rio, como já dizia um velho provérbio, as transformações foram enormes e teremos todos de nos ajustar em um ou outro aspecto. Por isso, mais uma vez, reitero a importância do autoconhecimento para a autoliderança: somente se olharmos para dentro e aceitarmos a onda de mudança é que poderemos sair do apego ao passado para empreender, avançar na construção de um futuro diferente.

Isso é liderar a si mesmo. É aceitar que o que passou não volta; aceitar que não há normalidade possível depois de tantas vidas que se perderam (aliás, mesmo antes disso, o conceito de ‘normal’ sempre me pareceu bastante inapropriado, mas isso é papo para outro dia); aceitar, sim, que teremos medo do desconhecido e que ainda não sabemos como vamos fazer, o que vamos fazer ou quais mudanças acontecerão naturalmente e independentemente da nossa vontade.

Aceitação é uma parte essencial da autoliderança porque me permite olhar para os eventos e para mim mesma com neutralidade e tranquilidade. E aí sim, com base nisso, decidir quais rumos posso tomar, quais decisões são realmente possíveis e aonde vislumbro chegar a partir dessas escolhas. Essa é a parte que me cabe.

Tempo de inovação, mas só se houver espaço

Não está nas minhas mãos, nem na de ninguém construir um ‘novo normal’, mas, sim, tomar decisões que resultem num novo futuro, onde teremos efetivamente aprendido com o que deu errado e nos permitido fazer diferente em prol da inovação.

Aliás, para finalizar, acredito que este é um dos tempos mais propícios para a inovação em toda a história da humanidade. Mas isso só se dará concretamente se, reitero, pararmos de desejar a volta da normalidade para empreendermos em direção a novas tentativas e erros, a novos aprendizados e novas soluções criativas, pensadas e implantadas por pessoas emocionalmente inteligentes – capazes de assumir as próprias falhas e de dizer: se este jeito não deu certo, qual outro é possível?

A pandemia veio nos mostrar que o jeito como estávamos vivendo não deu certo (ou, pelo menos, parou de funcionar). Então, eu pergunto: para você, na sua vida, nas suas competências, qual outro jeito é possível? Fazer isso diferente é tudo que lhe cabe e, pode ter certeza, fará imensa diferença.

Temas:

CEO do Centro Hoffman, é expert em Autoconhecimento e Inteligência Comportamental, considerada uma das maiores especialistas no método Hoffman no Brasil. Palestrante, Coach, Master Practitioner em PNL, Consteladora Sistêmica, autora de "O Mapa da Felicidade" e de "Perdão, A Revolução que Falta", além de coautora de mais sete livros sobre Gestão de Pessoas, Liderança e Coach.

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