Paternidade ativa, responsável, bem resolvida, afetiva… Hoje em dia, fala-se bastante sobre o assunto, que, na verdade, refere-se a uma disfunção bastante antiga nas famílias brasileiras (e, por que não, do mundo todo).

Por isso, antes de falar sobre a importância do pai na formação de uma criança, gostaria de tecer algumas considerações. Em primeiro lugar, perceba que, há muitas e muitas décadas, na maior parte dos lares, mães e pais desempenham papeis completamente distintos: enquanto elas ficam responsáveis por praticamente tudo – amamentar/alimentar, dar banho, trocar de roupa, colocar para dormir etc. –, eles cuidam das tarefas de apoio, quase como se fossem ajudantes.

Recentemente, essa realidade começou a ser modificada (o que se deve, em grande parte, à ampliação do debate sobre o assunto). Hoje, por exemplo, já há estudos apontando que, quanto maior a participação e a presença dos pais, maiores as chances de que os filhos se tornem mais bem-sucedidos tanto na vida pessoal, como na vida profissional.

Mas, quando entro nesse assunto, muita gente me pergunta: o que é que uma coisa tem exatamente a ver com a outra?

Simples: a infância é a parte mais essencial na formação de um adulto. É desse período da vida que todos nós obtemos absolutamente todas as referências que vão nos servir de base para a vida.

Pensando nisso, fica mais claro por que é tão importante ampliar a participação e presença dos pais, não? Afinal, ao assumir seu papel e seu protagonismo no cuidado com os filhos, eles fazem com que a criança se sinta amada, protegida, vista e cuidada. O pai, ao lado da mãe, colabora para formar um adulto participativo, capaz de lidar e de demonstrar as próprias emoções, bem como de assumir compromissos e dividir responsabilidades.

Ao assumir seu papel e seu protagonismo no cuidado com os filhos, os pais fazem com que a criança se sinta amada, protegida, vista e cuidada

Vale dizer ainda que, assim como a presença, a ausência também ensina algo a criança. Sem essa proximidade, ela pode crescer referenciada em diversas crenças negativas a seu próprio respeito, as quais, futuramente, vão atrapalhar seu amadurecimento. Por exemplo: se o filho acreditar que o pai se faz ausente ou menos presente por que não o ama, na fase adulta, poderá tentar “reverter” esse quadro. Consequentemente, poderá buscar inconscientemente parceiros ou parceiras que lhe façam sentir tudo isso de volta (afinal, é essa a dinâmica que ele entende como “amor”).

 

Pai e mãe precisam rever seus contratos

Muitos pais não reconhecem a importância de criar vínculo com seus filhos porque, muito provavelmente, foram criados dessa mesma forma. Como disse, é muito antiga a crença de que cabe às mulheres o cuidado com os filhos e, aos homens, no máximo ajudá-las.

Consequentemente, assim como seus próprios pais fizeram, esses novos pais pouco participativos olham para sua história e para o momento que vivem hoje e, de uma forma ou de outra, acreditam em algo do tipo: “eu fui criado assim e dei certo; tenho certeza de que meu filho também dará”.

A perpetuação dessa crença ainda se dá em muitas famílias e, também como disse antes, muitas vezes é corroborada pelas próprias mães – que acreditam que precisam dar conta de tudo sozinhas, assim como fizeram suas mães, avós, bisavós.

Para mudar essa realidade, é preciso que ambos, pai e mãe, revejam o ‘contrato’ que estabeleceram sobre isso. À mãe, por exemplo, cabe dizer que precisa de apoio e confiar que o parceiro fará o melhor possível e terá tanto amor quanto ela. Ao pai, cabe se predispor a participar de verdade, não apenas ajudar.

Isso também envolve quebrar a crença de que ‘ser mãe não dá trabalho porque é prazeroso’. E sabe por quê? Porque, enquanto continuarmos presos a esse paradigma de que cuidar dos filhos não dá trabalho, autorizaremos àqueles que trabalham que foquem apenas no emprego (que é o trabalho propriamente dito), e negaremos aos que cuidam dos filhos o direito de ficarem cansados, estressados, entediados ou deprimidos (porque esses, afinal, não estão tendo trabalho, apenas prazer).

Parceria e diálogo são a saída

A falta de parceria e de diálogo é uma queixa comum entre homens e mulheres. Eles e elas se sentem, muitas vezes, invalidados ou anulados diante da maternidade/paternidade. Os motivos são esses que mencionei antes. Se, por exemplo, ela se vê sozinha e ele se vê perdido (sem nem sequer saber que pode e deve participar), bem, esse casal precisa de diálogo.

Ela precisa conseguir dizer: “quero que você participe mais”; ele precisa conseguir responder: “eu também quero, mas não sei como”.

Aqui, vale lembrar: é evidente que o equilíbrio no cuidado com os filhos beneficia o casal, mas nem sempre se pode responsabilizar apenas os pais pela ausência. Muitas mães ainda desconfiam dos próprios parceiros; acreditam que eles não darão conta das atividades como elas dariam, que não farão tão bem feito. Invalidar o pai causa tanto impacto quanto a paternidade ‘não-ativa’.

A verdade é que, antes da chegada de um filho, muitos casais fantasiam como será. Mas, quando enfim acontece, eles percebem que não era muito bem como achavam que seria. E é aí a hora de renegociar o contrato. Se estiverem realmente dispostos a partilhar a criação – e, reforçando, para isso é preciso que ambos revejam suas crenças –, eles certamente conseguirão encontrar um equilíbrio melhor e mais eficaz.

Eu sei que parece difícil mudar esse jogo e essa dinâmica, mas, confie em mim: é um esforço que vale a pena. Ao praticar o diálogo aberto e sem julgamento com seu parceiro ou parceira, você dará abertura para que ele ou ela se sinta confortável, confiante e seguro(a) nesse espaço de fala.

O segredo, portanto, é ser honesto (mas, claro, buscando sempre uma maneira de se expressar que não agrida e nem acuse ao outro); é, também, ouvir com atenção o que o outro tem a dizer, sempre separando as críticas e elogios que lhe pertencem e lhe servem do conteúdo que não é seu e, portanto, não tem nada a agregar.

A paternidade ativa, responsável, bem-resolvida e afetiva tem tudo para ser uma energia poderosa que transformará a nossa sociedade a partir dos indivíduos. E eu vou torcer para que você, pai ou mãe, consigam torná-la viável e real!

Espero que tenha gostado! Até a próxima.

Com amor e luz,

 

Temas:

Expert em Autoconhecimento e Inteligência Comportamental, considerada uma das maiores especialistas no método Hoffman, no Brasil. Palestrante, Coach, Master Practitioner em PNL, Consteladora Sistêmica, autora de "O Mapa da Felicidade" e coautora de mais sete livros sobre Gestão de Pessoas, Liderança e Coach. É diretora do Centro Hoffman

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